O Sacas (Zambujeira do Mar)

Setembro é altura de rumar a Sudoeste. Vício tramado que apanhei há uns anos e não me consigo livrar dele, más companhias é o que dá. Mas a chatice dos vícios é que são bons, dão prazer, e por isso custam a largar. Pois para mim não há vício mais retemperador, que transmita uma maior sensação de liberdade, que uns dias de descanso e descoberta na costa vicentina. E descoberta porque por muito bem que conheça a região, ano após ano consigo-me surpreender com novas praias, novos lugares, novas pessoas, novos cheiros e sabores.
Apesar de tudo, o texto de hoje não é sobre uma descoberta, é sobre uma confirmação, uma das maiores confirmações gastronómicas de toda a costa vicentina. E chamando de costa vicentina, da península de Tróia, à pontinha de Sagres. Sras e Srs... O Sacas, onde a D. Ana faz as nossas delícias.

Antes de se chegar ao Sacas, somos atraídos por aquele porto de pesca, que nos captura os sentidos, ao ponto de nos inebriarmos com aquela vista, e com aquele cheiro a mar. Depois, para continuar o encantamento, desça-se a rua e entre-se no templo que é o Sacas. 
Dois espaços, a sala interior mais aconselhada para as noites, que não raras vezes são frias, e a esplanada com cheiro a maresia para os dias solarengos.
À entrada somos logo saudados pela montra dos peixes e mariscos, é um fartar delicioso que nos entra pelos olhos, mas também é aqui que as coisas começam a correr menos bem, é que com escolha tão vasta, tudo peixes de pasmar, fresquíssimos, nem sei para onde me virar. Até têm peixes que eu não reconheço, e isso aborrece-me realmente. Mas rapidamente se apercebem da minha dificuldade e prontamente me socorrem passando-me um guia de espécies para a mão. Linguados, percebes, rascassos (este foi um dos que falhei, raios!), sargos, búzios, lulas, pampos (outro, e já tinha gasto as ajudas), bodiões, linguados, cavalas, sardas, e já chega... Haviam outros, mas fico por aqui só para não vos maçar mais. Bom, nesta altura pensei que indo para a mesa as coisas melhoravam, a esplanada foi uma coisa que nos assistiu, que o verão de Setembro estava uma delícia, mas quando chegou a lista, foi pior a emenda que o soneto.
Caldeirada, Fricassé de Safio, Ensopado de pescada com camarão e ameijoas, feijoada de lapas, feijoada de buzios, raia à francesa, sopa de peixe, moreia frita, tirando a bateria de pescado para a grelha. Bolas, só nos safamos com a moeda ao ar. E como peixe grelhado posso comer em qualquer lado, a moeda acabou por cair para o lado de pratos mais robustos e que não encontro com facilidade.


Moreia Frita (6€/2px). Antes já tínhamos picado um maravilhoso pão alentejano com umas "bravas" azeitonas verdes. Ainda me tentaram os percebes, que estavam com um aspecto maravilhoso, mas a moreia é petisco com que não me costumo cruzar, e nesta altura do ano está no seu melhor (dizia pescador sabedor). Esta estava muito boa, para quem gosta, com aquele sabor forte (a mim faz-me lembrar o safio, mas com menos espinhas) a contrastar com o crocante da pele.
Polvo à Pescador com Batata Doce (12,5€). Excelente. A batata doce combina de forma perfeita com o sabor forte do estufado de tomate, e o polvo, saboroso, tinha a textura ideal. Imaginem um ensopado mas sem pão, tudo com um apuro irrepreensível, um hino à cozinha regional portuguesa.
Feijoada de Búzios (13€). Muito bom também, apesar dos búzios estarem um niquinho rijotes. O sabor do conjunto, e o ponto perfeito do feijão, faziam esquecer o resto.
Morgado de Amêndoa (3,25€). Ovos moles, fios de ovos, doce de chila, tudo muito fresco, a fundir-se na boca. Um sabor que trouxemos na memória.

Sem companhia para a carta de vinhos, deixei-me ir numas loiras fresquinhas, mas havia por lá um Cartuxa Branco (17,5€) a catrapiscar a feijoada de búzios. Ficará para a próxima.
O serviço não é exemplar, o preço também andará no limite do aceitável, e pelo meio até houve um prato lascado, mas naquele ambiente quase de praia, com um ar que se respira e nos purifica as entranhas, e perante uma cozinha tão genuína, com produtos de tal qualidade, são reparos que assumem uma dimensão menor.
No final lembro-me de uma frase que li algures, "as horas aqui passam como nos sonhos", e não encontro um conjunto de palavras mais perfeito para terminar este post.

Restaurante O Sacas.
Entrada da Barca, Zambujeira do Mar
Tel. 283 961 151.
Fecha às Quintas.
Preço médio sem vinho, 20/25€

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